17.2.07

A CAPOEIRA ANGOLA COMO PRÁTICA SOCIALIZADORA



A CAPOEIRA ANGOLA COMO PRÁTICA SOCIALIZADORA

THE CAPOEIRA ANGOLA AS A SOCIALIZING PRACTICE

Luiz Tadeu Fröhlich Filho e Alexandre Scherer

:: Resumo ::

Nesta pesquisa, traçamos um breve histórico sobre a capoeira na colônia, no império e na república. Comparamos os estilos atuais de capoeira: Angola, Regional e Contemporânea, caracterizando a Capoeira Angola como uma prática social que permite a integração e a socialização de crianças, jovens e adultos, independente de classe
social, grupos étnicos ou gênero.

:: Palavras chave ::
História da Capoeira; Capoeira Angola; Capoeira e Socialização.

Abstract

In this research, we tried to plot a brief historical about capoeira in the colony, empire, and republic. We compared the present styles of capoeira: Angola, Regional and Contemporary, characterizing Capoeira Angola as a social practice that permits integration end socialization of children, teenagers end adults, not depending on social class, ethnics groups and gender.

Key words:
History of Capoeira; Capoeira Angola; Socialization and Capoeira Angola

1. AS INTERAÇÕES ÉTNICAS NA ORIGEM DA CAPOEIRA

No século XVI, após perceber que o índio não aceitava o cativeiro, os colonizadores portugueses trouxeram as primeiras levas de escravos africanos para o Brasil. Os negros carregaram sua religião, seus folguedos e uma pluralidade de manifestações étnicas. Entre elas o batuque, que se caracterizava por embates físicos com origem em lutas e torneios africanos que envolviam ritmos e golpes, como rasteiras e cabeçadas.

Estes torneios eram incentivados dentro das fazendas, na época da escravidão, para criar uma rivalidade entre as etnias pertencentes a um mesmo senhor. Segundo Verger (2000), os escravos eram separados de suas tribos e famílias para que não fosse possível criar uma célula de ideologias rebeldes. As lutas, que reuniam centenas de escravos, aconteciam em frente à Casa Grande (moradia do senhor de engenho) como forma de ostentar o seu poderio econômico, também chamado de “ouro negro”.

A imposição de novos valores culturais pelos dominadores, como a religião católica e a língua portuguesa, fez surgir uma resistência negra. A resistência não era apenas contra a violência física, mas também ideológica. Resistir constituía em uma ação estratégica onde o corpo e a cultura eram o referencial. Assim, dentro das senzalas nasceu a Capoeira. Ela era disfarçada em dança ao som dos instrumentos de percussão, pois se fosse apresentada como luta seria vulnerável. “Por força das eternas leis da conservação da pele e da perpetuação da espécie o escravo foi obrigado a recorrer ao ataque – CAPUÊRA – ou à fuga QUILOMBO” (Silva, 2003, p.49)

Para o autor, os quilombos eram aldeias de rebeldes compostos por negros, índios e brancos. Longe dos colonizadores, criou-se a possibilidade de um intercâmbio livre entre essas diferentes culturas. A capoeira se fortaleceu. A liberdade da prática do candomblé enriqueceu seu ritmo e seu gingado. A relação com os indígenas, exímios caçadores e guerreiros, ensinou o valor da dissimulação e da surpresa no sucesso da caça. O batuque influenciou diretamente no desenvolvimento das rasteiras e na ausência do uso das mãos como arma de ataque. A principal herança dos quilombos foi o desenvolvimento de uma consciência coletiva de liberdade, hoje chamada Consciência Negra, que levou aos escravos de todas as partes a esperança da libertação.

A revolução pela liberdade gerava diversos conflitos entre os rebeldes e os colonizadores. O mais importante dos quilombos, o de Palmares, situado na Serra da Barriga, entre Alagoas e Pernambuco, sofreu diversos ataques, quase todos frustrados. Os negros tinham grande destreza ao combater na mata. Zumbi dos Palmares, seu líder, é lembrado ainda hoje como símbolo da luta contra a opressão colonizadora. Cidades como Macaco, Subupira, Dambraganga, Tabocas, Osenga e outros Mocambos (subdivisões dos Quilombos) agüentaram por quase um século o poder militar de duas potencias da época, Portugal e Holanda. Macaco caiu em 1694 e Zumbi foi morto em 20 de novembro do ano seguinte.(Reis, 1995)

No século XVII a colônia criou uma política pra reprimir a desordem social que era atribuída, na maioria das vezes, aos capoeiras, devido aos inúmeros combates entre elementos de diferentes grupos.

Posteriormente, as revoltas tornavam-se crescentes e ganhavam força à medida que os governantes perdiam o controle. Segundo Reis (1995), estes acreditavam que, a qualquer momento, um levante coletivo, como no Haiti no início da década de 1790 – única revolução escrava bem sucedida do novo mundo, poderia ocorrer. Esta revolução destruiu a mais lucrativa colônia européia do seu tempo, criando um estado negro nas Américas.

Segundo Freitas (1985) e Amado (2002), algumas revoltas urbanas também aconteceram, como a revolta do Malês. A nação Malê era composta por negros muçulmanos cultos que estavam intelectualmente acima dos lusos. Os escravos provindos desta nação eram professores dos colonos e faziam as contas dos senhores. Na revolta dos Malês, no início do século XIX, seu líder governa a Bahia durante quatro dias. Assim, como exemplo a outras nações rebeldes, sua revolta foi combatida com crueldade, exterminando também mulheres e crianças. Durante a Guerra do Paraguai e a Guerra dos Farrapos, aos negros que bravamente aceitaram lutar na frente de batalha e sobreviveram era prometida a alforria, promessa que nunca foi cumprida.

Segundo Sanches Neto & Oyama (1999), com a promulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, o negro no Brasil sai de uma escravidão negra para uma escravidão econômica. Isto significava que eles eram livres, porém não conseguiam se sustentar. Para Coutinho (1993), as atividades dos negros eram as mesmas do tempo da escravidão. Trabalhavam como doqueiros , trapicheiros , estivadores, carregadores de carga, executando serviços braçais pesados que, pela tradição, eram destinados aos negros fortes.

De acordo com Abreu (2003), nesse período a capoeira deixa de ser usada como arma de guerra e passa a ser praticada como diversão nas horas vagas nos mercados, nos portos e nas feiras-livres, geralmente acompanhada de muita conversa e bebida.

2. A CAPOEIRA: SEUS ATORES E SEUS ESTILOS

Para Silva (2003), a “vadiação”, nome que era dado à capoeira pelos seus adeptos, passou a ter também um caráter lúdico, e alguns locais tornaram-se referência desta prática, pois apresentavam as maiores concentrações de capoeiristas. A primeira referência de uma roda de capoeira pública deu-se na Praça de Nossa Senhora da Purificação, no Município de Santo Amaro da Purificação (Bahia), no dia 12 de abril de 1882, tendo como Mestre o Tio Alípio. Na cidade de Salvador, a vadiação ocorria principalmente na Estrada da Liberdade, no Passo do Tabuão, no Cais Dourado e no Cais do Porto.

No Brasil Império do século XIX, a vida tornou-se principalmente urbana e a população cresceu nos grandes centros de Salvador e Rio de Janeiro. Com grande descontentamento, o povo vai às ruas com os Capoeiras à frente confrontando a Guarda Real. A publicação do Código Penal, em 1890, tornou a capoeira proibida nas ruas e praças, com pena de prisão para os não cumpridores. Os capoeiristas tornaram-se elementos marginalizados, abominados pela sociedade e a capoeira rompe o século na obscuridade.

Para Silva (2003), somente no governo de Getúlio Vargas, com a criação do Estado Novo, algumas manifestações então proibidas puderam ser cultuadas sob vigilância do governo. Começaram a surgir livros que tornaram pública a existência da cultura afro-brasileira, influenciando os rumos da cultura nacional. Uma destas manifestações culturais chamava-se Capoeira Angola. Segundo Castro Júnior (2004) entre os antigos praticantes, esse misto de luta e dança também era conhecida como Brincadeira de Angola, Vadiação ou Mandinga. Os angoleiros tinham o costume de apresentar-se nas rodas de domingos e feriados com belos ternos de linho branco com boca-de-sino e chapéu de panamá com a aba torta.

A Capoeira Angola continuou a ser cultuada e exercitada nos guetos. Durante as festas populares, todos se encontravam, profanavam as festas católicas com seus batuques e sorrisos. Assim como a construção do povo brasileiro – uma mistura de europeus, africanos e indígenas – a Capoeira Angola sobreviveu e se impôs como patrimônio cultural do nosso povo.

Para Itapoan (1982) Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba, misturou a Capoeira tradicional, chamada Capoeira Angola, com o batuque, criando a Luta Regional Baiana. Ele exigia de seus alunos carteira de trabalho assinada ou comprovação que estavam estudando.

Com isso, excluiu os tradicionais praticantes da Capoeira Angola e ao mesmo tempo incluiu a Luta Regional Baiana no cotidiano da sociedade dominante. Mestre Bimba ficou famoso e reconhecido como grande lutador, desafiou e venceu adversários de outras modalidades marciais. Nas festas populares desafiava qualquer um para enfrentá-lo com sua luta.

O Presidente Getúlio Vargas percebendo a força da luta criada por Mestre Bimba o convidou para fazer uma apresentação. Getúlio apreciava a liderança e a força política do Mestre Bimba. Este deu um caráter esportivo à sua luta e foi o principal responsável pela sua elitização. Criou seqüências metodizadas de ensino através da padronização mecânica corporal, uniformizou seus alunos e instituiu regras rígidas para o treinamento. Foi o responsável pela criação da cerimônia de formatura e da divisão dos alunos em graduação, representada por lenços de seda coloridos.

Getúlio Vargas, então, extinguiu do Código Penal o decreto-lei que proibia a capoeira e os cultos afro-brasileiros. Sua prática passa a ser permitida, porém supervisionada e licenciada pela classe dominante. A Luta Regional Baiana passou a ser chamada Capoeira Regional. Mestre Bimba entrou para a história como o responsável pela descriminalização da Capoeira que de prática de vagabundos e desordeiros passa a ser reconhecida como arte marcial genuinamente brasileira.

Segundo Nestor Capoeira (2001), o objetivo de legalizar a capoeira foi permitir a construção de um campo de apoio à política de uniformização social do Estado Novo.

A República de Vargas trouxe a “retórica do corpo” que foi marcada pela política desportiva e pela proposta de formação do professor de educação física a partir do discurso de corpos e espíritos disciplinados. Isto determinou um caminho caracteristicamente militar na educação física do Brasil. Para o autor:

“A capoeira sofreu mais uma transformação; embarcou na retórica do corpo de Getúlio Vargas, trocou a rua pelos recintos fechados das academias, saiu da marginalidade para a legalidade e deixou de ser – um pouco – um teatro mágico que representava a vida, deixou de ser uma filosofia da malandragem para se tornar mais acadêmico-desportiva.” (p.79)

Mestre Bimba se tornou folclórico. De sua maneira truculenta foi notícia e fez história na Bahia dos anos vinte aos setenta, quando faleceu em Goiânia. Foi para o estado de Goiás depois de ter recebido muitas promessas de trabalho.

Nessa época, Mestre Bimba achava que a Bahia não lhe proporcionava o que merecia. Em Goiânia percebeu que havia sido enganado e que todas as promessas eram mentiras.

Porém, seu orgulho não o deixou voltar para Salvador. Assim como Mestre Bimba, muitos outros morreram pobres, sem o reconhecimento merecido após uma vida dedicada à arte da capoeira: Pastinha, Waldemar, Bobó... Foram os frutos da desvalorização da capoeira tradicional pela classe dominante, que ainda a considerava prática de vagabundos.

Nos guetos, os representantes da Capoeira Tradicional se preocuparam com o crescimento da Capoeira Regional. Reivindicavam seus direitos como professores e mestres. A explosão do turismo na Bahia tornou o ensino da Capoeira uma interessante ferramenta de sustentação econômica.

Enquanto a Capoeira Regional teve um caminho de aperfeiçoamento técnico e físico para que ocorresse rendimento marcial em sua prática, a Capoeira Angola teve um caminho inverso. As rodas que ocorriam na década de vinte relatadas por Mestre Noronha em seus manuscritos, “só tinham barulho”. Barulho era sinônimo de confusão, e os locais freqüentados pelos angoleiros eram sempre os de maior concentração de povo. As rodas eram fáceis de entrar, o difícil era se sair bem. Os velhos mestres da época eram os únicos que conseguiam instaurar a ordem.

Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha era um angoleiro muito respeitado. De acordo com Abreu (1999), freqüentou e depois foi responsável pelo Conjunto de Capoeira Angola Conceição da Praia e posteriormente também da Gingibirra, local famoso por ser freqüentado somente por mestres da capoeiragem baiana. Segundo Amado (2000), mais tarde Pastinha mudou-se para seu local mais famoso, o Pelourinho 19, um casarão onde foi fundado o Centro Esportivo de Capoeira Angola.

Com a crescente expansão da Capoeira Regional na década de trinta, o Mestre Pastinha assumiu um papel de organizador da Capoeira apresentada para o povo como Capoeira Angola. Havia uma concepção de jogo libertário, com raízes no reencontro com os irmãos de Angola. Uma reunião étnica, já que então quase somente negros praticavam a capoeira. Mestre Pastinha foi o principal representante da Capoeira Angola em Salvador. Preocupou-se com a produção filosófica e intelectual da Capoeira.

Escreveu um livro e seu acervo de músicas e versos é considerado a verdadeira filosofia da malandragem. Deixou heranças importantíssimas do verdadeiro sentido do que era ser um capoeirista naquela época.

Segundo Abreu (2003), Waldemar Rodrigues da Paixão, conhecido como Mestre Waldemar da Liberdade, foi um dos principais referenciais da capoeira da Bahia nas décadas de 1940 e 1950. Era o responsável pelo “Barracão”. Este se assemelhava aos barracões dos candomblés, aos cercados que os negros levantavam para seus festejos e às palhoças dos pescadores a beira-mar. Devido a sua imensa riqueza cultural, o Barracão servia de inspiração para artistas, tendo como alguns de seus freqüentadores Jorge Amado, Pierre Verger, Caribe e Mário Cravo Júnior. Mestre Waldemar foi o criador de um dos símbolos da Bahia, o berimbau pintado.

Mestre Waldemar formou vários mestres renomados, como Cobrinha Verde, Najé, Cabelo Bom, Bugalho e muitos outros. Mestre Bugalho era um exímio tocador de berimbau e tornou-se um dos mestres da famosa Rampa do Mercado de Salvador. O mercado era um local onde as rodas tradicionalmente aconteciam. Lá se formaram muitos nomes da geração dos velhos mestres de hoje, como o mestre Pelé da Bomba, que iniciou na capoeiragem o mestre Índio, do Mercado Modelo.

A prática da Capoeira Angola, embora tenha ganhado força com a divulgação do Mestre Pastinha, ficou por muito tempo sendo praticada apenas nas zonas populares. As rodas começaram a tomar dimensões de tradição local. Angoleiros consolidavam suas rodas em diferentes locais: o Mestre Pastinha realizava sua roda na ladeira do Pelourinho; Mestre Waldemar na estrada da Liberdade; Mestre Traíra no bairro do Chame-Chame; Camafeu de Oxossi no velho Mercado e tantos outros na rampa do mercado e no Cabula (bairro onde outrora se localizou um quilombo).

Manoel Olímpio de Souza, o Mestre Índio, foi um dos responsáveis pela proliferação da Capoeira no estado do Rio Grande do Sul. Chegou em Porto Alegre nos anos setenta e formou a primeira geração de mestres do grupo Oxossi. Albrantino Marques de Souza, conhecido como Mestre Biriba, faz parte da segunda geração de mestres do grupo Oxóssi e hoje é um dos representantes e pesquisadores da Capoeira Angola no Rio Grande do Sul. Ele é a referência atual sobre os conhecimentos da Velha Bahia que utilizamos neste estudo.

A Capoeira Angola, atualmente, deve ser tratada como patrimônio por todos aqueles que a praticam. Cada um é singular em seu modo de jogar, não há mecânica comum de movimentos. Os angoleiros primam pela personalidade de cada indivíduo. O processo evolutivo da Capoeira Angola é demonstrado quando pessoas de todas as etnias são aceitas e bem recebidas nas rodas. É uma prática de autoconhecimento, pois a roda gera sensações e situações que permitem entender o outro.

Cada capoeirista pode criar o seu instrumento musical, tendo este a cor que desejar. Ou ainda, criar instrumentos inusitados como os que Mestre Churrasco fabrica. Este é uma personalidade ilustre da capoeira do Rio Grande do Sul, um verdadeiro artista popular que representa a capoeira como um todo. Há mais de dez anos vende seus instrumentos no “Brique da Redenção” (conhecida feira que ocorre aos domingos em Porto Alegre – RS).

Nos últimos anos, foi criado um terceiro estilo de capoeira, onde há uma mistura da Capoeira Angola e da Capoeira Regional: a Capoeira Contemporânea. A nova capoeira é uma “capoeira show” onde existem saltos, acrobacias, apresentações combinadas.

Há muito dinheiro para quem aprendeu pouca capoeira. Dentro deste novo movimento econômico, os velhos mestres passam a ter o seu valor contestado, pois o valor cultural e histórico não interessa, mas sim o lucro. Os restaurantes, os teatros, a exportação e conseqüente a exploração de artistas do povo, bem como do artesanato e das artes plásticas, cria um novo mercado rentável e muito disputado.

Na Capoeira Contemporânea existe, na nossa opinião, um paradigma a ser quebrado em relação ao uso do sistema de graduação por cordas e cordéis. Segundo quem os usa, são bons instrumentos simbólicos de motivação, pois seguram os alunos nas salas de aula, incentivando-os através do sonho da troca de graduação. Entendemos que esta visão é superficial e desnecessária em um processo de ensino da capoeira em subúrbios e periferias. Os aprendizes da Capoeira Angola devem preocupar-se em entender a arte sem pressa, e nesse contexto o sistema de cordéis atrapalha. Um sujeito que deveria ter como sua maior arma a surpresa, com o cordel em sua cintura, é identificado rapidamente perdendo o segredo da roda. A convivência entre homens, mulheres, pessoas de diferentes classes sociais, com estilos e comportamentos diferentes deve ser harmônica e sem preconceitos. A padronização e a rotulagem empobrecem a multiplicidade de estímulos da roda de capoeira.

Em uma roda onde todos os participantes estão à paisana, podemos caracterizar a inclusão social, já que qualquer pessoa que conheça o ritual da roda, ou ainda quem sentir vontade de participar da brincadeira só precisa transpor o “abismo da roda”.

Refiro-me à pequena distância entre quem está fora e quem está dentro da roda. Distância mínima, mas que ao mesmo tempo muitos demoram para vencê-la. Talvez seja o medo que tenham daqueles capoeiristas que transformam as rodas em rituais de covardia e humilhação, ou somente o medo do que não se conhece. O fato é que poucas rodas ainda conservam a historicidade e a ancestralidade da capoeira tradicional da Bahia.

Vemos rodas onde meninos de rua não podem jogar, por não terem a calça padronizada ou por não estarem vestindo a cor que a roda exige. Assim a discriminação se perpetua; as relações de poder se sobrepõem, privando os verdadeiros herdeiros desta arte que nasceu justamente da pobreza e da carência.

Devemos lembrar dos Capitães de Areia, exímios capoeiristas que foram a inspiração de um romance de Jorge Amado.(2002). É à vontade com a roupa que gosta, ou simplesmente com a que tem para “vadiar”, que o mistério da roda aparece. Qualquer moleque pode roubar a cena, jogando de igual para igual com o próprio Mestre, mostrando sua auto-estima imperturbável ao sobrepor capoeiristas que, pela força, o subestimam, porém, muitas vezes, saem da roda com novas lições de humildade.

“Tivemos a ocasião de admirar um menino de sete anos, que dançou com o próprio mestre Waldemar, de quem é aluno (...). Não se pode imaginar quanto era comovente acompanhar a ágil figurinha infantil, hábil, compenetrada, a competir com o homem mais velho, em cujo rosto se iluminava um sorriso afetuoso, porém nada complacente.

Concentrado, o menino aplicava cabeçadas e rasteiras, escapulindo matreira e agilmente das rasteiras e cabeçadas do mestre, cônscio da sua dignidade de futuro capoeirista, de futuro artista popular, imperturbável, sobre os olhares e exclamações dos espectadores”. (Abreu, 2003, p.21).

A herança de Waldemar, e de todos os responsáveis pela preservação da velha capoeira, é viva no cotidiano da sociedade gaúcha em nossos tempos. Hoje é fácil encontrar uma roda de capoeira nos domingos ensolarados em parques porto-alegrenses como a Redenção, o Parcão e o Marinha do Brasil.

A roda de Capoeira Angola é nossa prática social domingueira. Com ela exercitamos o corpo, fazemos novos amigos, jogamos conversa fora e tudo acaba em samba-de-roda como nos tempos da velha Bahia. É bom acordar aos domingos às oito horas da manhã, colocar a orquestra de capoeira nas costas, pegar um ônibus para o Morro Santo Antônio e lá encontrar em média vinte alunos dispostos a praticar esta atividade. Brincar de capoeira, dar gargalhadas e arrancá-las do povo, com as peripécias que o corpo do capoeirista pode fazer. O Brique da Redenção e o Parque Farroupilha são ao mesmo tempo palco de manifestações populares, como nossa roda de capoeira, e de eufóricas campanhas políticas em anos eleitorais.

A roda é aberta, qualquer um pode entrar, desde que respeite o próximo. Jogar capoeira com alguém que você nunca viu, aprender a conversar com o olhar e com o corpo, procurar defender-se do “blefe” é aprender a lidar com as mentiras e verdades da roda. Se livrar das dificuldades da roda é praticar rapidez e ao mesmo tempo cautela ao se livrar dos incidentes da vida. Segundo Castro Júnior (2004):
“A capoeira acaba por ser uma escola da vida, onde se aprende a jogar capoeira. E, ao aprender a jogar capoeira, aprende-se também a jogar na roda do mundo, a tomar posição, analisar circunstâncias de classes sociais com interesses antagônicos, interferir no sentido de querer transformar a realidade.” (p.146).

Inevitavelmente, a Capoeira do Rio Grande do Sul apresenta-se diferente da baiana. Embora as raízes da Capoeira gaúcha sejam baianas, sofremos influência da nossa cultura. Jogamos a capoeira da bombacha, da adaga, do churrasco, do chimarrão e dos Lanceiros; já, a baiana, é a do abadá (roupa usada pelos escravos), da navalha, do dendê, da cachaça e dos Malês. Assim, para aqueles que gostam de cultivar culturas passadas, regredir no tempo e experimentar o espaço é evoluir na prática da Capoeira Angola. Voltar aos bons e velhos costumes como as rodas nos mercados e nas festas populares e subir o morro para devolver ao povo o que é dele. A cultura popular deve dar liberdade para os que desejam reinventar a sua prática, como fez Mestre Bimba, mas também respeitar os que guardam os antigos conhecimentos.


3. A CAPOEIRA ANGOLA E A SOCIALIZAÇÃO


Na Capoeira Angola, embora existam diferenças entre as escolas, a maior parte dos fundamentos básicos dos verdadeiros angoleiros são os mesmos. Há música, dança, teatro, artesanato, filosofia e é claro destreza física, respeitando a liberdade e as peculiaridades de comportamentos e de atitudes de cada indivíduo.
Segundo Silva (2003):

A Capuêra Angola é uma forma zombeteira de se divertir, onde, o combate dá lugar a alegria, ao prazer tanto de quem presencia como de quem a pratica, causando confusão naqueles que estão acostumados aos combates sérios das outras modalidades de lutas, não compreendendo as expressões dos corpos relaxados e dos sorrisos dos capuêras, não percebendo quando as pernas fazem Mizerer.” (p.88).

Para jogar Capoeira Angola é preciso mais do que eficiência marcial dos movimentos. É necessário ser malicioso, mandingueiro, conhecer o ritual, os caminhos da roda e os passos da ginga. Ser sutil ao atacar e vigoroso ao escapar. Atuar quando for preciso, “sorrir para o inimigo e apertar a sua mão” . Quando se joga com um amigo a conversa é de um jeito, já com um rival ou desconhecido, o diálogo corporal é completamente diferente. Para cada pergunta existe uma resposta.

A roda de Capoeira Angola é um espaço de troca de conhecimentos e de emoções. Quando cair, aprender que o difícil não é a queda, mas sim se levantar com o orgulho ferido do tombo. Aprender a controlar a raiva, o sentimento de vingança após sofrer uma queda. Ter recursos corporais para devolver a rasteira dentro do jogo, com lealdade.

Sublimar as dificuldades da roda, responder com sutileza e destreza às agressividades. Levar esses ensinamentos para a vida a fim de resolver os problemas do cotidiano com muita calma e sem violência A roda de Capoeira Angola é democrática, pessoas de todas as classes sociais e de diferentes origens étnicas conseguiam conviver em uma mesma prática lúdica.

A música na Capoeira Angola é incidental, pois tradicionalmente é acompanhada de todo contexto da roda e de suas peculiaridades. O ritmo é lento e de fácil assimilação, tanto para acompanhar tocando, cantando ou gingando. A orquestra ou bateria é composta de oito instrumentos. O berimbau é o principal, e estão presentes três em uma roda. Os outros instrumentos usados são: o agogô, o reco-reco, o atabaque e dois pandeiros. As cantigas da roda recontam histórias cantando, e são um instrumento de transmissão oral dos ensinamentos. O coral deve ter a representatividade de um mantra, mandando boa energia para quem joga e para quem compartilha da vadiação: tocadores, cantadores ou espectadores. Segundo Silva (2003):
“Amigos, por que não cantam? A capoeira só é bonita jogando, cantando e só perdeu a beleza porque não canta. O velho mestre na sua simplicidade dá importância ao coro na integração dos participantes da roda de capoeira num campo energético único funcionando o canto orfeônico (relativo ao canto coral, com ou sem acompanhamento) como um verdadeiro mantra”. (p.110)

Os velhos mestres têm a preocupação de transmitir aos seus alunos todos os segredos da “capoeiragem”. Um deles é a confecção artesanal dos instrumentos musicais da roda de capoeira. Um processo de criação do combustível da roda, a música. Descobrir o som secreto que cada berimbau produz. Descobri-lo desde a textura e cheiro da casca até a sua pintura criativa, que dá identidade àquele que o carrega nas rodas da vida.

Apesar de muitos mestres terem ido embora do Brasil para tentar melhorar de vida e de outros se aposentarem aqui mesmo, muitos deixaram uma teia de responsabilidade social. Aqueles capitães de areia que eles ensinaram formaram-se homens, cidadãos, que hoje são mestres respeitados pelo Brasil e pelo mundo, mestres e discípulos comprovando o valor social da Capoeira. Contestar o valor de novos angoleiros formados na periferia ou em academias é necessário, pois a conduta do capoeirista é importantíssima para seu reconhecimento. Para esses novos capoeiristas, a proposta é de que tenham a ciência de que terão um papel de defensores de uma tradição a eles transmitida. Sem nenhum radicalismo ou esforço, reagirão como angoleiros, brincando de maneira primitiva com o próprio corpo.

Se fossemos levar em consideração o culto ao corpo e os padrões de beleza atuais, o capoeirista deveria ser malhado, encurtado, contraído, e quem sabe também anabolizado. Porém, os novos angoleiros continuam flexíveis, com seus corpos relaxados e sem a intenção de machucar o seu camarada.

A beleza maior da Capoeira é quando angoleiros, regionais e contemporâneos compartilham do mesmo espaço; é quando as contradições aparecem entre uma rasteira e outra. Bonitas são as rodas nas quais pais e crianças podem participar, rodas onde queremos jogar e não brigar. Mestre Pastinha dizia que, quando você perde, deixa a “coisa na negativa” para, na hora certa, contra-atacar, ou seja, devolver dentro do jogo e nunca precipitar-se com uma agressão. Os capoeiristas devem deixar o jogo fluir, apreciar o diálogo corporal, ver quem manda melhor no seu corpo, quem pensa mais rápido; deveriam jogar pra não errar seus passos na roda e nunca apenas para pegar o outro.

As rodas da velha Bahia eram muito perigosas, mas sempre existiu uma solidariedade entre os seus. Talvez tivessem a consciência da importância da capoeira como válvula de escape para as dificuldades da vida. Aqueles negros gostavam de brincar com o perigo. Seus medos sempre foram diferentes dos medos dos brancos.

Gerações de novos capoeiristas estão sendo formadas nas academias, clubes, escolas e em centros comunitários. Na periferia ou em locais centrais. E só o tempo dirá se esses meninos cumprirão o seu papel de conservadores e transmissores da cultura.

Qual será a capoeira do futuro? A capoeira bélica em tempos de guerra e terrorismo, ou o retorno aos tempos da capoeira como prática social integradora? Será um culto ao reencontro com amigos nestes tempos onde precisamos de paz?

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